sábado, 3 de janeiro de 2009

Enta(s)...lanços


A vida tem destas coisas. Um gajo não se livra de chegar à tal idade que ninguém deseja alcançar. Não por existir um golpe de mágica degenerativa, que transforma um vigoroso atleta num artrítico ser, num abrir e fechar de olhos, mas porque se estigmatizou que os 40, representam a entrada na curva descendente da vida. Na realidade , em termos de maleitas físicas, os 39 representaram para mim um dos piores anos. Espero que não seja um augúrio para a entrada nesta malfadada coisa dos entas... De qualquer das formas tinha decidido que passaria o meu dia dos 40 anos de vida dentro de um rio. Tinha de forçar os meus amigalhaços a partilharem comigo essa comemoração, facto que se adivinha cada vez mais puxado a ferros (é que os gajos já passaram os 40 há alguns anos e estão a assim a caminhar para a pantufinha e o café com cevada em frente à televisão). Na realidade os amigos agora estão mais vocacionados para a neve e, lá me desencaminharam para fazer uma perninha no dia anterior, numas descidas na montanha em cima da prancheta. Tive assim a oportunidade de passar o que restava dos meus 39 anos a dar cuzada e cabeçada pela montanha abaixo. A coisa até correu melhor do que eu esperava, apesar da triste figura que fui obrigado a fazer, para conseguir apanhar aquele teleférico versão "panila", onde um gajo tem de meter uma borracha aconchegada nas bordas do traseiro e esperar pelo "esticão". O Pedro deu-se bem com a técnica logo nas primeiras vezes... questões de disponibilidade para a coisa... Deu gosto ver os meus sobrinhos, quais prós do snowboard, a deslizar na gazua pelo declive e a dizer ao tio que o esperavam lá em baixo. O Jorge, já numa fase mais evoluida, foi para Espanha reinar nas pistas das pampas...



Os "prós" nas pontas e o... outro... no meio





Até a apertar as patungas o tipo não é lá grande coisa ...

Bom mas voltemos ao que interessa. Aos meus 40 anos no rio. Para compensar a chuva que apanhámos na carola no topo da serra, um dia de sol para um rio predilecto...o Covo. O rio estava esplendoroso, fantástico, um caudal de fazer inveja...



...Pronto!...agora que já passei por um breve exercício de auto-convencimento, de alguém que fez quarenta espampanantes anos e mereceria melhor sorte, chegou a altura de assumir que...o rio estava,...ora bem,...como hei-de dizer,...uma Trampa!! É verdade, tudo começou com a porra dos cães!? a fuga dos meus cães arraçados de jumentos (pela envergadura e capacidade intelectual) e do cão do Pedro arraçado de Ogre muito bem educado; obedeceu à ordem do dono "vem já aqui!", uns minutos depois...Mas o mais curioso da história é que o ogre de 4 patas, veio apenas depois de sentir o imperceptível odor emanado pela cagadela do Jorge (parece que o canídeo estava já a uns 5 km...). Senão fosse esse promenor intestino-temporal, da vontade súbita do nosso amigo para defecar, e a esta hora o Shrek ainda estaria perdido no matagal. É caso para dizer "salvo pela bosta".

Como não acredito em Karmas, não liguei a este início conturbado da viagem e lá fomos até ao rio Covo. A opção parecia acertada, tinha chovido torrencialmente durante 3 dias e o Jorge não conhecia o rio; seria um bom dia para o conhecer. Quando chegámos percebemos que não teria lá muita água,...mas arriscámos...



O rio está catita...



04 anitos


Até parecia um bom início...



... até à 1ª entaladela



Água em barda...




Depois de entrar na água foi o que se sabe; calhau ali, entaladela acoli, raspadela de acolá. Perspectivava-se que metade dos nossos barcos ficariam fossilizados nas pedras do rio covo. Depois de duas entaladelas, comecei a acreditar no Karma e passou-me a sensação de que aquilo poderia ser um sinal de que , a partir dos 40, iria ser entalado muitas vezes e essa ideia não me agradou muito. Expus ao grupo a minha opinião: "entre ficar repetidamente entalado e entalar os dentes num bife de vaca arouquesa, qual a opção a seguir?..." O Jorge estava por tudo; o Pedro achou que poderíamos arrastar o traseiro durante mais algum tempo,...o tempo suficiente para se fartar também daquilo.




2ª entaladela


Isso! de marcha atrás! agora desvira, desvira...



Ele há cada peco,...dá mas é cá mais um eurio, que isto de arrumar o veiculo dos outros é mais caro...




Eh, eh, mais uma entaladela...



Buáááá...eu nã quero enta...ladelas...


Quem foi o camelo que me obrigou a vir para esta merda???


Abortámos a descida ao fim de umas quantas entaladelas. Rumámos a alvarenga para resolver a questão da chicha em cima do prato.


A caminho da bifanga


No caminho percebemos que o Paiva também não tinha água (na parte do sexo ups) e que apenas teria dado para descer o desfiladeiro.


Ao trincar o bife de alvarenga e depois de muito paleio, percebemos que a viragem dos entas nos leva para esta opção bastante digna e sábia de distribuição proporcional dos prazeres mundanos. Cada vez menos rio e cada vez mais trincadela na vitela. Não é mal pensado, não senhor, embora cá p'ra nós eu ainda não tivesse conseguido assumir em pleno essa proporção; é que o rio ainda nos faz um bem tremendo ...ao ego, apesar de alguma discordância das malfadadas artrites

Ficamos à espera de mais....


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Senilidades

Cheguei a V. Cambra, deixei a mulher e os filhos e dei uma saltada ao paiva. O tempo chuvoso teimava em retirar-me a vontade de dar um mergulho, mas como sou teimoso lá fui. Não me apetecia mandar grandes cambalhotas; apetecia-me sobretudo descer qualquer coisa para tirar a ferrugem da disponibilidade para remar. A etapa Vau-Espiunca em solitário seria o ideal para voltar à carga. Cheguei à beira rio pelas 15,30h. Apressei-me em desmontar o caiaque, vesti o fato, colete, saiote...saiote??...onde está o saiote?...porra!!!...grande besta!...tinha-me esquecido do saiote em Torres Novas. Apetecia-me partir para a auto-flegelação, quando olhei para o tempo escuro e chuvoso, e pensei: talvez não seja tão mau assim. Voltei a montar o caiaque em cima do tejadilho e a moínha da teimosia voltava para me atazanar o espírito quase convencido. Rumei ao areínho na esperança de haver um canoísta que me facultasse o objecto anti-submersão. Vi muitos carros parados, sinal de que haveria malta a descer. Voltei a espiunca e lá estavam eles a chegar. Pedi um saiote ao primeiro canoista que vi , que rapidamente o dispensou (um agradecimento ao Rui Calado pela disponibilidade). "Vou ali remar um pouco e já tu devolvo!" disse apressadamente, que já estava tarde. Ainda dei uma palavrinha ao amigo Luis Vieira, que vinha nesse enorme grupo, e corri até ao rio. Desci aos 3 saltinhos e entrei no rio às 16,30h. Subi mais um pouco, escorreguei e mandei um bate cu e uma cotovelada num calhau. Veio-me à memória o espalho do Pedro. Pensei que uma luxação ali sozinho significava uma lixação ali sozinho, ou seja, um valente molho de bróculos. Não podia pensar nisso, remei um pouco, dei poucas cambalhotas e desci. Pretendia testar uma lesão no ombro que me persegue. O ombro continua lixado, ...mas que se lixe. Vamos ver quantas descidas consigo fazer este ano, assim... preso por arames.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Com sal pelas ventas...


Existem dias assim. Existe qualquer coisa que nos vem incomodando, uma espécie de moínha que nos massacra a boa disposição. Falta-nos água, o reboliço do espumaço. Vou a Lisboa e meto o caiaque dentro do carro, pelo sim pelo não. Tinha um pressentimento que ali havia o que precisava. Os amigos estavam lá à espera, para me levarem à praia onde vamos algumas vezes quando queremos curar as agruras do dia-a-dia . O Guincho estava ali, envolto em nevoeiro, sem ponta de vento...?...As ondas, médias a puxar para o quebra-coco, mas não interessava. Queríamos remar, deslizar, sentir o espumaço no trombil. Era o retorno do Pedro após o percalço no cávado, que ainda lhe vai valendo sessões de fisioterapia todos os dias. Agora estávamos ali os três, sem ninguém nos ver, de volta à água, a fazer ondas, um ritual que começámos quando começámos a canoar no guadiana no ano de 1989. Íamos com os nossos primeiros elefantes de plástico para a praia de Carcavelos, descer por elas abaixo, sem nenhum de nós imaginar o que seria fazer esquimotagem. Cada capotadela representava uma vinda à areia esvaziar o submarino para que pudesse de novo emergir. Como aquilo sabe bem; a água estava vazia de malta, mas cheia de sal. Cada chapada da água do Guincho na iris , correspondia a um saudável ardor dos olhos. Voltámos às lides em conjunto. O Jorge precisa de arranjar um novo wave-ski, porque o seu fóssil já não flutua com a sua massa corporal. Apesar disso, o Jorge na onda é sempre o Jorge na onda; aquela onda que o vi fazer já não me lembro há quantos anos, na praia do Béltico com um mar louco; alto, muito alto e alucinado. Eu tinha feito a minha única onda e cheguei à praia aos trambolhões sem metade do wave-ski; o Jorge Reis não conseguiu entrar de body board e observávamos o Jorge a surfar aquela onda enorme, perdido qual grão de areia numa monstruosa massa de água, a deslizar de forma fluida, sem pressas. E nós no Guincho exaustos, ao fim de pouco tempo. A idade já vai pesando, as costas doendo e não há maneira de passar este vício, esta maldição prazerosa de nos conduzir ao rio ou ao mar, para levarmos umas bolachadas. Ainda bem que estamos aqui no Guincho, os três imberbes quarentões a rirmo-nos não sabemos bem de quê, mas como isto sabe bem...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Amolgadelas


Estou a escrever a nossa descida do fim de semana e não sei bem o que dizer….As perspectivas eram a melhores... Conseguimos ir em período pré-salário que é o mesmo que dizer, período pós-penúria. Endividámo-nos com receio de que fossemos encontrar escassez de líquido daqui a uma semana.
Desta vez fomos os três: Jorge, Pedro e eu. Metemo-nos no carro e decidimos que iríamos lá bem para cima (eles disseram que eu é que decidi, mas é tudo treta desses malandros)…Já me esquecia,…eles têm-se queixado que eu tenho batido muito neles neste blogue, e eu vou tentar ser mais meiguinho, portanto, esqueçam lá essa parte dos “malandros” e ponham esses “excelentes rapazes”,…e já agora, esqueçam a “treta” e substituam por “a mais pura das verdades”. O plano traçado em cima do joelho, consagrava uma ida ao Cávado no sábado, para no domingo rumarmos ao Beça. Não tínhamos qualquer noção de caudais, mas esperávamos uma correnteza agradável, proporcionada por este Maio Adezembrado. À medida que os quilómetros iam passando, percebíamos que o rio tinha mesmo de valer muito a pena. A vantagem dessa loooonga viagem é que pudemos dizer mal à bruta dos Sócrates que nos entesa a cada dia que passa com a porra do deficit e que mais um anito e já só podemos descer rios nos meses do subsídio de férias,…parece que depois dos tipos conseguirem a meta de colocar o litro de gasóleo nos 2 euros até ao final do ano, vão dizer que o subsídio é um perigo para a saúde pública e tem de ser combatido.



Lá conseguimos encontrar o cávado depois de pisar muita bosta de vaca. O dia parecia querer colaborar; umas nuvens com o sol a espreitar davam o mote para uma boa descida. Primeira parte do percurso muito boa para desenferrujar a remada e depois é sempre em crescendo, com bonitas passagens, uma ou outra com mais inclinação, mas sem problemas. Parámos junto ao primeiro tobogan de enorme pendente à direita. Depois de alguma reflexão decidimos não fazê-lo,…mas a tentação foi muito, muito grande.





Foi com alguma inveja dos comentários fervorosos feitos à imagem da fabulosa máquina do Pedro, que eu decidi levar a minha esplendorosa e ultra-mega-pixel kodak com captação automática de enorme definição até das micro-pulgas no dorso de um canídeo. Seria um enriquecimento de monta na reportagem fotográfica . Levei também comigo uma caixa estanque do mais inovador que tem sido criado,…a sua marca?...tupperware!!! E não é que os tipos têm mesmo razão quando dizem que aquilo é mesmo estanque. Pois é, sim senhor…







Num rápido com algum pendente o Pedro quis fazer um teste de resistência ao seu material Wave-sport e vá de lançar com toda a fúria e os seus irrisórios quilitos, a proa da embarcação contra um calhau para ver no que dava. Deu numa reformulação tecnológica da frente do seu Habitat. Parece que é uma nova tendência em estudo pelos desenhadores da marca americana para os barcos do creek moderno… O Dono da embarcação é que não ficou lá muito contente e vá de mandar umas bojardas valentes em jeito de Karaoke…(eu também prometi que não falava nas capacidade vocais do Pedro para o Karaoke)…portanto esqueçam lá isso e troquem o “em jeito de Karaoke” e ponham lá “em jeito de Valentim Loureiro” .





Antes da amolgadela...


Depois da amolgadela e antes da outra amolgadela...


Que saudades do prijon...


Começou a chover, o que não era muito bom para a aderência naquelas pedras lisinhas das margens. Parámos para inspeccionar o salto, e o meu barco quis partir para o saltar sem o dono em cima (parece que o dono só atrapalha). O dono zangado gritou “Baaaarco” e o Pedro, correu solícito para o alcançar e Trum!…uma enorme escorregadela,…pernas no ar e braço em cima do calhau. A gravidade exercida pelos seus 100 quilos fez o resto. Um grito ecoou pelas escarpas. A princípio ainda nos apeteceu dizer, “Seu brincalhão! Deixa-te lá dessas traquinices!....vá, agora levanta-te e vamos ao que interessa!…”, mas ele continuava no seu calvário de dor. E aí percebemos que a coisa era feia. Desconfiámos de uma luxação do ombro e tentámos pôr aquilo no sítio, mas, depois de algumas marteladas, não conseguimos. O Pedro contorcia-se de dor ao mínimo movimento e foi aí que começámos a inspeccionar a retirada de emergência do rio. Olhámos em volta tudo era escarpado e agreste. A coisa estava negra. Não havia alternativa senão tentarmos subir aquela subida…classe…muito íngreme. Antes do acidentado pensar em negar a subida, disse-lhe logo, que poderia escolher entre aquele caminho no meio do silvado ou a minha reprodução em Karaoke do “deixa-me rir” do Jorge Palma. Ele lá foi…Sem catana para desbravar todos aquele matagal, fomos conquistando metro a metro na esperança de contacto com civilização. Demorámos cerca de meia hora até encontrarmos um antigo armazém em ruínas. Conseguimos chamar a ambulância que levou o Pedro até ao Hospital de Montalegre. Parece que os bombeiros, adeptos do todo-o-terreno, decidiram sujeitar o paciente a um trilho ao jeito da Mauritânia e a cada buraco que saltavam, o Pedro sentia-se mestrado em faquirismo. Em Montalegre, o médico que olhou para a luxação, fez a cara que um bovino faz quando lhe perguntam qual a raiz quadrada de 79(?). Não mexeu em nada…com medo de falhar na prática, a matéria do volume dois de anatomo-fisiologia que ensinava “Como pôr o osso no sítio em duas lições”. Mandou-o para o hospital de chaves,…outra vez em Todo-o-terreno…mais umas facazitas espetadas.
Eu e o Jorge arranjámos boleia para o carro e fomos ter com o Pedro. Decidimos que só iríamos resgatar os barcos no outro dia de manhã. Chegámos ao hospital e o Pedro ainda estava deanbulando entre o Raio X e o gabinete médico. Enquanto esperávamos debatíamos as nossas preocupações quanto ao estado de saúde do nosso amigo: “Esperemos que lhe ponham rápido aquilo no sítio que a gente tem de ir trincar a vitelinha!” .

Ele saiu com o braço ao peito e falou-nos da relação intimista que estabeleceu com o médico a sério (daqueles que até mexem no paciente) que o recebeu. Parece que ele lhe fez umas meiguices e depois “Trac!” ….(Como já perceberam Trac é o contrário de Trum). A coisa voltou ao sítio e nós já podemos trincar a vitelinha descansados. Ao longo do jantar o Pedro não se coibiu de reforçar a meiguice do médico, …e agora que eu ia novamente entrar em associações brejeiras,…lembrei-me de manter o nível e reforçar que o médico era um excelente ortopedista de seu nome Matos… Paiva (sintomático).
Ó p'ra mim aqui tão....coitadinho... cheio de dores...e o doutor era tão meiguinho


Depois de uma noite em som estereofónico entre o ressonar …perdão …a respiração um pouquinho sonora do Jorge,…e o ressonar …perdão…a trepidação imperceptível do Pedro, fomos resgatar os barcos. Descemos eu e o Jorge pelo silvado novamente e iríamos descer o resto do rio com os 3 caiaques, enquanto o Pedro nos iria buscar de carro à central. Optámos por não fazer o salto onde tínhamos ficado (um era escasso para garantir a segurança do outro) e depois, íamos à vez descendo os rápidos seguintes. Curiosamente a secção central, até ao mega tobogan foi a que se passou melhor, com 3 passagens magníficas. Depois daí, a coisa foi-se complicando, porque em alguns casos não dava para passar dentro do barco. Foi a fase da agradável alternância entre canelada, cotovelada, cuzada, joelhada nos calhaus. Ainda tivemos a esperança que o mostrengo …perdão…o volumoso caiaque do Pedro ganhasse pernas, e qual cavalo nas corridas de Ascott prosseguisse até à meta sem cavaleiro. Mas não!...acartámos à bruta com aquele volume todo.
Chapppp....


Um dos mais divertidos rápidos


Chapppp...



O sacana do mono...perdão...do volumoso,...não quer andar nem por nada...



O VIDEO Aqui



Acabámos o Cávado em dois penosos dias, em frente de mais uma vitelinha do melhor. Ficou-nos este sabor agridoce da beleza do rio e do ombro lixado do Pedro, e do cotovelo também, por não ter feito a segunda parte connosco dentro do barco. Lá voltaremos…para fazermos o pleno…



domingo, 13 de abril de 2008

Eu vi um sapo...


Esperávamos por este dilúvio há já algum tempo. Metemo-nos no carro e rumámos em direcção ao Covo. Tínhamos pensado no Cávado inicialmente mas como só ia o Pedro e eu, o Cávado era longe como camandro, ou seja, ao Cavado ficava caro como camandro. O Jorge?...bom, é com enorme mágoa que terei de admitir que o Jorge…defecou em nós. Trocou-nos por um dos 5538 reconhecimentos que já fez a 3214 barragens ou a 2324 trilhos de montanha por esse país fora. Um dia de eleição para rios de eleição e o gajo vai para o meio do mato fazer reconhecimentos?...só se os reconhecimentos tivessem umas coxas muito engraçadas e um busto bem firme e definido. Se assim for estás perdoado…
Não tínhamos a presença do Jorge no carro mas tínhamos a companhia de uma alegre e desinibida mosca. Ora pousa no vidro, ora esvoaça para o volante, ora aterra na cara, ora zumbe nos ouvidos. Enfim, um ser extremamente atraente e enérgico. Estaria feliz por finalmente alguém a levar a passear para fora desse marasmo onde apenas vê árvores e cagadelas de pássaro.
Depois de chamarmos uns nomes feios ao Jorge por nos ter trocado por um par de coxas, de espantarmos 50 vezes a mosca, do Pedro fazer umas imitações fiéis do criolo falado na sua escola de Chelas, chegámos a Castro de Aire para comermos “alguma” coisa antes de entrarmos na água. Tínhamos em mente fazermos uma espécie de dois em um. Como tínhamos apenas um dia, faríamos o Covo primeiro e depois escolheríamos entre o Tenente e o Águeda, dois rios ali perto e que, tal como o covo apenas se fazem com caudal elevado.
Chegámos ao rio e percebemos que o frio era muito, talvez daí a mosca não estivesse com muita vontade de abandonar o veículo. Ainda insisti com ela “Olha que aqui é muito bonito! existe ali água, umas ovelhinhas a pastar, uma aldeia muito engraçada, umas varejas reluzentes…até podes sentir este vento nas tuas asinhas…A mosca não estava para aí virada e ficou-nos a guardar os valores. Ainda bem, porque com a ladroagem que p’raí anda nunca se sabe. E assim se um gatuno se atrevesse a invadir o veículo levava logo com umas agressivas zumbidelas do canal auricular que logo se punha em fuga.


Ainda abrimos as portas a ver se a mosca saía...


Ó Miguel Não queres fazer uma troca?


O rio Covo estava mais uma vez esplendoroso. Com muita água para nos garantir diversão. Começa logo com uma sequência boa para nos fazer abrir as pestanas e depois é sempre bom, muito bom, quase tão bom como comer um Magnum numa esplanada de Cascais, quase tão bom como ...esqueçam....

Estou com saudades da mosca...


O Desnível é constante e o entusiasmo também. Para o cenário ser perfeito, apenas faltou um pouco mais de sol que por vezes espreitava timidamente pelas frinchas das nuvens (achei que ficava com nível esta metáfora aqui metida). Seguem-se as imagens que revelarão o esplendor deste fabuloso rio. A acção aparecerá no vídeo AQUI...cuja qualidade está claramente acima da média ou seja assim-assim (acima do mau e do péssimo).







É sem dúvida um dos nossos rios predilectos, por várias razões: É o mais perto de casa (apenas a 200km), os rápidos são sucessivos e existe sempre uma mosca que nos atanaza durante a viagem...


Com um caiaque mais maneirinho isto não acontecia!


Na procura de enriquecer este blogue com uma recolha incessante de imagens dá origem a aumentar o tempo de descida em mais uma hora. É certo que as imagens ficam sempre... como hei-de dizer, ...embaceadas,...mas a malta convence-se sempre que ficam muito melhores.


Chegámos ao final e tinha de se decidir quem punha a pernoca a funcionar para ir buscar o veículo ao início. O Matulão lá vociferou com o seu criolo aportuguesado que tinha má circulação nos membros inferiores, uma insuportável dor de costas, uma ezirpela rara, um tubérculo na canela, portanto não poderia correr. Olhei em volta e só sobravam os caiaques e eu. Ainda pensei em dar um toque à mosca, mas a tipa tinha chumbado no exame de código, porque estava distraída a olhar para as asas de outra mosca espampanante (falhou 5 questões, entre as quais aquela de "para que lado se roda a chave para por este veículo a iniciar a sua marcha"). Como a mosca não me podia trazer o carro e com o matulão agarrado à canela, só restava pôr-me ao caminho e fazer a corridita durante aqueles 5 quilómetros.

Até os caiaques se recusaram a ir buscar o carro....




Não tinha outro remédio senão...subir,...subir muito


Cheguei ao carro e lá estava o raio da mosca, encostada ao tablier com ar extenuado. Parece que um gang de tipos armados com shot guns quis entrar no carro e ela deu um enxerto de zumbidelas neles todos. Eu é que já não aguentava mais zumbidela...


Estarão os leitores a pensar, porque raio este gajo intitulou esta aventura de "Eu vi um sapo..."? Só o ouvimos falar da mosca(?)...mosca para aqui, mosca para acoli, e do sapo nada. Pois eu vou desvendar o mistério. Confirmei durante a descida, um estudo recente divulgado por uma conceituada revista Australiana, o qual assegurava que os sapos, para além de terem grandes pernas (mas não tão boas como a tipa do reconhecimento do jorge), de serem exímios nadadores, têm também uma enorme capacidade intelectual. Descobri então o enorme discernimento dos sapos quando, numa das paragens ia a pegar no meu caiaque e reparei num sapinho colado no seu interior. Não ficou nenhuma dúvida. Ele tinha ali dois barcos um ao lado do outro e saltou para dentro daquele que lhe possibilitaria um ninho mais aconchegante, com maior qualidade, com um aspecto mais belo. Depois de o deixar usufruir de tão bela embarcação por mais uns momentos, tive que o mandar para o seu habitat, apesar da sua enorme resistência e de um ou outro lacrimejar. Eis a prova do bom gosto do jovem sapo...


Eram 15.30h arrumámos as coisitas no carro e fomos abastecer a pança a Castro de Aire antes da próxima descida. Pedimos duas bifanas, enquanto estabelecíamos estratégias para o rio seguinte. Estávamos a pensar se descíamos os Tenente ou o Águeda. Olhámos lá para fora e chuvia à bruta; olhávamos para as bifanas e ...não chuvia nada. Então? vamos ao Águeda ou ao Tenente? - Olhe se faz favor!...venham mais duas bifanas e dois finos!


Os restos do "Águeda" e do "Tenente"


E a Mosca? A mosca iria regressar connosco. A última vez que me lembro de a ouvir Zumbir estava ela em cima da perna do Pedro, que não estava de muito bom humor. Ouvi um ruído que lembrava uma mão a espalmar qualquer coisa com asas. Poupando os pormenores mais sórdidos, apenas dizer que o tempo de vida da mosca foi reduzido de 5 para dois dias. A cerimónias fúnebres foram realizadas com alguma pompa e solenidade: os restos mortais foram lançados para o solo do meu carro com uma vigorosa dedada similar à de quem empurra o berlinde em direcção à covinha. Que descanse em paz... na covinha do meu tapete.