terça-feira, 17 de maio de 2011

Águeda Paraíso


Conseguimos uma aberta, ou antes, conseguimos a árdua tarefa de encontrar uma aberta no hiper-preenchido calendário do Jorge Justas e lá fomos, depois de meio ano sem remar, em busca da aventura. Apontámos ao Águeda Internacional, para nos baldarmos às portagens, mas não acalentando à partida, grandes esperanças de um caudal aceitável para descer. Já tínhamos definido uma volta a Portugal, até ao Castro Laboreiro, no caso do líquido no Águeda nos defraudar.
Saímos de Torres Novas com calor de verão, chegámos a Almeida debaixo de uma intempérie invernosa com relâmpagos e tudo. Desta vez o Cruise control do Pedro ficou em Lisboa, e voltámos ao pedal control da bomba Ford. No caminho, a potência da bomba foi sendo posta em causa pelos experts da mecânica automóvel, afiançando que a 3ª se ia abaixo, que o motor carecia de compressão, que os pistons não deslizavam, tudo pintelhices (parafraseando um tal economista aspirante a ministro) que se esfumavam na velocidade de ponta do veículo sobretudo nas…descidas…Ainda se fizeram associações brejeiras de uma pseudo-relação entre a falta de potência do carro e a prestação em domínios obscuros do seu dono, …mas o dono passou ao lado.
Chegados a Almofala , na conversa com transeuntes, descobrimos que, para aqueles lados, chovia há 3 dias seguidos, factor a favor do líquido no rio. Espreitámos o rio lá de cima,…bem lá de cima,…porque o rio fica lá em baixo,…bem lá em baixo. Um desfiladeiro majestoso que augurava uma aventura à moda antiga e que parecia ter alguma “áuguita”(ao contrário da 1ª tentativa seca feita há um ano atrás). Decidimos que a 1ª etapa terminaria algures ali em baixo, num caminho que sairia algures perto do rio. Seria fácil identificar a saída vindos do rio?...mas é claro que sim!...afiançava um pastor…Tentámos arranjar boleia para colocar o carro na chegada, sem sucesso. O nosso aspecto seria confundido com um qualquer presidente do FMI a sair da casa de banho, e toda a malta que abordámos em busca de boleia, se fechou em copas, obrigando-nos a ir para o rio sem carro no final…

 O rio não nos defraudou. Rápidos amigáveis, alguns sifões pelo meio e duas paredes enormes de cada lado, mantinham-nos enclausurados naquele espectáculo de beleza natural. A ideia de que, se algum azar acontecesse não haveria grandes hipóteses de sair dali, era reforçada com o permanente olhar aéreo dos enormes abutres, em busca de um belo jantar. Águias reais que pegavam em borregos pequenos como de coelhos se tratassem, também nos lançavam o seu ávido olhar … A temperatura do ar e da água ao nível das tépidas ilhas bora-bora. Remámos e reconhecemos, durante 6 horas. O tal do caminho de saída tardava em aparecer, ao que o Pedro lançou um : É Aqui!...Olhei para a margem e só via matagal subindo por uma encosta muito íngreme(?). Incrédulo, lancei…Aqui aonde??? Qual perdigueiro treinado, Pedro vasculhou os vestígios de provas e viu beatas no chão. Pensei tê-lo ouvido dizer ao jeito do grande chefe humpá-pá: "rosto pálido passou aqui à 38 horas e 43 minutos".... Decidimos deixar os caiaques e todo o material junto ao rio e embrenhámo-nos no matagal , sem grandes certezas no instinto pisteiro do nosso guia. É aqui o caminho! A alegria por termos encontrado o trilho, foi-se desvanecendo à medida que percorríamos aquele calvário de meia hora sempre a subir. No total deu quase 2 horas de caminhada até ao carro.

 Esse factor deu origem a que me rendesse e trocasse a primeira noite que dormi dentro do veículo sem potência, por uma 2ª noite na fofa caminha da pousada da juventude…num quarto bem longe do das duas betoneiras, que tentavam discutir entre si o título do motor acústico com maior compressão. Não sei qual dos 2 saiu vencedor, mas eu dormi que nem um anjinho.
No 2º dia, com medo de termos de penar com uma caminhada muito maior do que a do dia anterior, a envergadura do Pedro entrou sem hesitações dentro de uma oficina em Mata de Lobos atacando: “Aquela carrinha 4x4 é de algum dos senhores?” Lá do fundo respondeu um senhor a medo… “é minha!”…o instinto mortífero do matulão tratou de voluntariar à força aquele desprotegido senhor, estendendo-lhe logo uma nota na mão e apresentando a sua ajuda como um facto consumado. O senhor lá nos foi levar ao rio, de início um pouco contrariado, mas depois, quando viu que estava perante malta séria, daquela que não diz uma asneira, não lança um ressonar, não diz mal do governo, não liberta uma bufa malcheirosa,…descontraiu-se e até desceu connosco ao rio.
Mais uma etapa fabulosa, desta vez com os músculos doridos do dia anterior e da falta de treino.
No final estávamos contentes por todo aquele envolvimento e por termos o carro já ali em cima…?...sim ali em cima…era só levar os caiaques e os fatos molhados ali, até onde tinha ficado o carro. No desfiladeiro do Águeda, o “Já ali em cima” significa “Mas nunca mais chegamos à porra do veículo …sem potência…”
A dureza da subida, fez saber melhor a frescura da bebida na companhia do senhor que nos salvou e nos ajudou a colocar o carro …já ali em cima...


Um fim de semana inesquecível, num rio inesquecível. A vida tem destes presentes reservados a quem se atreve a procurar...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Covo em Cruise Control...



Tinha várias opções para comemorar os meus 42 anos. Entre a estadia num hotel de 6 estrelas no Dubai, uma sessão intensiva de massagens com 5 tailandesas, uma viagem a Nova Iorque, decidi por uma descida de rio com dois amigalhaços…?...um gajo com a idade perde faculdades ao nível do discernimento… 4+2=6?...42?...24?...

Combinámos em cima da hora, uma incursão compatível com as debilidades físicas de quem já não remava há uns meses. O Covo tinha os ingredientes que necessitávamos: diversão, pouca distância e reduzido stress… só faltaria o tempo para ajudar, mas os tipos da meteorologia não tinham compaixão pelo aniversariante e vaticinavam chuva com fartura e ventos fortes. Mas que se lixe! Até porque teremos a oportunidade de conhecer as enormes potencialidades do novo veículo do Pedro. E não fomos defraudados. A viagem foi uma descoberta constante das múltiplas e intrincadas funções do carro arraçado de Concorde. Tudo naquele robot de rodas funciona de forma automática, aspecto que, garantia o Pedro, não lhe dizia grande coisa. “Vocês sabem que eu não ligo nenhuma a estas mariquices,…mas já viram aqui este comando automático dos retrovisores?...” . Mas dentro todas as funções inovadoras do veículo, aquilo que mais sucesso fez, foi o tal do “Cruise Control”, que consistia em manter o carro em velocidade constante, sem se ter o fatigante trabalho de pressionar o acelerador com o pé. A outra vantagem é nunca se passar do limite sobre o qual a brigada de trânsito esfrega as mãos de contente. A substituição do nome “controlo da velocidade” por “cruise control” tem duas funções: a função de internacionalizar para impressionar, na mesma linha do “tration control” (controlo de tracção), do “ligth control” (controlo da iluminação), do “seat belt control” (controlo dos cintos), “Fart control” (controlo do cheiro das bufas malcheirosas com abertura automática dos vidros).

Vejam! com Cruise Control e sem... Hands Control

Todos os nomes poderiam ser muito bem ditos em português, mas não tinha o mesmo estilo. A outra razão para a utilização deste estrangeirismo está no próprio “Cruise”, o sobrenome do tal actor que andou a brincar ao quarto escuro com a Nicole Kidman e a Penelope Cruz. É que o indivíduo foi protagonista do filme “Missão impossível”, o mesmo tipo de missão, que representava aguentar o pé de chumbo do Pedro inibido pela limitação do “Cruise control”. O acelerador era para ser pressionado em todo o seu esplendor e as multas…que se lixem… Que saudades do Fiat Panda dos anos 90, que nem tinha “heavy control” quando lhe púnhamos 5 latagões dentro e 5 caiaques em cima, nunca se queixava do peso e das irregularidades dos trilhos de montanha.
Concorde terrestre com "Kayak control"

Chegámos ao rio sem muita chuva, sem muito vento, sem muito frio e com alguma água. Desta vez eu iria estrear o meu presente de anos, umas calças “secas” encomendadas em tamanho L e recebidas em tamanho M, não por manifesta incompetência do vendedor, mas porque a viagem pelo correio tinha a função de “Size Control” e tratou de as mingar, achando que as minhas adiposidades não eram assim tão consideráveis.
Antes de entrar no rio, percebi logo que as minhas chanatas compradas no Lidl não tinham grande "tration control" e espetei com a bunda no chão e um silvado na mão esquerda.



Estou com dificuldade para entrar neste Size Control















Desta vez a descida não teve grandes oportunidades de recolha de imagens, perdão, “Image control”, isto porque o rio foi descido sem grandes paragens ou reconhecimentos, atestando o “self control” dos protagonistas. De destacar apenas a respiração ofegante do aniversariante após as primeiras remadelas, não por ter feito 42 anos, mas por alguma falta de treino específico da coisa. Com alguma inveja do “Cruise Control” da carripana do Pedro, eu e o Jorge não nos quisemos ficar atrás e testámos também o “Cruise Control” da nossa embarcação , mas coisa descambou em duas valentes caroladas no sólido calcário das pedras do rio. Tínhamos acabado de criar o “Head Control”, pela descoberta de que, tal como nunca se deve entregar o cartão de crédito à mulher dentro de um shopping, nunca se deve entregar o controlo da condução ao inerte caiaque…

Depois de concretizada a fabulosa descida seria a altura para a oferenda de prendas ao tipo que fazia anos. Os amigalhaços lembraram-se oferecer ao aniversariante aquela atractiva corrida em subida até ao carro. Fiquei feliz por se terem lembrado de prenda tão consoladora. Na altura de trincar o bife da vaca arouquesa, a senhora do restaurante tratou de oferecer ao aniversariante o bife bem passado com metade do tamanho do bife dos amigalhaços… Percebi que aquilo só poderia ser "Beef control" da cozinheira, para que as minhas carnes entrassem nas calças secas "size control" . O aniversariante agradece a generosidade…





O Meu...é o mini...

Valeu o desenho artístico da minha filha no final do dia e a história do “Duende que salvou o dia” desenhada pelo meu filhote. O meu dia de anos foi criado pelo Duende que sabia os ingredientes necessários para me salvar o dia: Começa no Rio com os amigos, termina em casa com a família…

segunda-feira, 15 de março de 2010

Novamente o Covo...E MacGyver com o canivete suiço

Depois de quase um anito sem remar os velhadas voltaram ao rio...



EO RESGATE EM VIDEO



Há algum tempo que estava combinado. O Jorge tinha um caiaque ainda com a etiqueta da loja dos trezentos, mas esperávamos que se reunissem as condições fundamentais para o reencontro com o líquido: Àgua em barda, Alívio das mazelas físicas próprias da idade e um sol do camandro. Na realidade decidimos que já não nos dá grande gozo apanhar com água na cachimónia durante as descidas, até porque as artroses dão logo sinal. Ìa quase incluindo a 4ª condição associada à escassez do saldo bancário, mas depois de ouvir a entrevista do Sócrates ficámos a saber que estamos perto da entrada directa na revista "Forbes".
Sem muitas dores, com perspectivas de água em barda e um sol do camandro, lá fomos todos contentes para o Côvo, um dos rios predilectos. Curiosamente, mesmo depois das chuvadas ininterruptas deste inverno, o rio tinha menos água do que as últimas descidas que tínhamos aí realizado. Deu para passar tudo, para o Jorge reconhecer que entre o seu antigo submarino e o seu caiaque novo com outra volumetria, a sua generosa massa corporal , estava mais tempo ao ar. Percebemos também que o Pedro não tem falta de acuidade auditiva, o barulho da água é que é muito intenso para os seus ouvidos.








O insólito aconteceu logo após uma passagem com um final algo retentivo. Uns metros mais à frente um pequeno desnível sem aparente dificuldade e o caiaque empancou num estranho bloco. Ficou atravessado e, com a força da água não deixava desbloquear, e rapidamente fiquei com água pelo peito. Decidi sair e esperar pela ajuda do Pedro e do Jorge. Corda daqui, puxão dacoli e o caiaque, farto de tanto abanão, decidiu esconder-se bem encostado ao leito do rio e desapareceu (literalmente) para debaixo dum enorme calhau. Dizer ao Pedro que teríamos de deixar ali o barco, seria espetar uma faca no seu ego de Macgwyver irredutível. Lá o consegui arrancar à força do local, mas notei na sua deprimida cara um “Isto não fica assim!...”.



Voltámos com menos um caiaque no atrelado mas não deixámos que esse episódio nos boicotasse um dos momentos mais importantes: o repasto pós rio. Parámos em Stª Combadão e, todos os restaurantes pareciam estar fechados. Todos, excepto a tasca da tia Alice, que nos presenteou com uma chanfana caseira a 5 euros a dose.
E o caiaque???...coitadinho, ali debaixo de água???...No momento em que trincava a chanfana, Macgwyver, já congeminava o resgate.
3 dias depois, lá fomos, agora sem o Jorge, munidos do …canivete suíço, e mais umas coisitas para ajudar a pescar a lampreia cor-de-laranja.



3 DIAS DEPOIS...

Voltámos ao local do desaparecimento, desta vez munidos com mais algum materialzito. Pedro MacGyver já tinha tudo pensado, mesmo para as mais difíceis contingências. Metemos os menires às costas em forma de mochilas e arrastámo-nos até ao rio. O caiaque, que não se via, por apalpação verificámos que tinha a presa da frente partida. Nada que desmoralizasse o mestre, que pôs todos os conhecimentos de engenharia do desenrascaço em acção. Ventas no líquido, amarração ao nível, cabo esticado, e trifor a funcionar. O peixe saiu logo à primeira, em perfeito estado e bem lavadinho. A lamentar apenas, que já no início do regresso, MacGyver tenha despoletado a sua hérnia discal adormecida, acabando a caminhar empenado até ao carro. A sua honra de Mestre do desenrasca, essa, voltou a não sair empenada...


MAcGyver resolve apenas com 1 canivete...
...e mais algumas coisitas...



Apanhar Lampreias à dentada?...MacGyver resolve!!!

Onde está o caiaque?...no final da corda...


Missão Impossível? Nunca para Macgyver!

sábado, 15 de agosto de 2009

"Justas" nas ondas de Stª Rita


Eu sei que este é um blogue sobre rios, mas à falta de líquido e assuntos fluviais, tenho de fazer uma breve incursão no mar, porque afinal é aí que o rio desagua ...e onde a malta se diverte no verão...

Este post é totalmente dedicado ao Justas que conseguiu ir ao pódio do campeonato nacional de wave ski montado no seu wave....protótipo. É verdade, Jorge Justino da equipa dos velhadas deste blogue, lá conseguiu colocar todas as suas avantajadas e usadas carnes em cima do remendado barco e sair vivo dali ainda por cima com glória.

Combinámos numa 6ª feira umas onditas às 7 da matina para depois assistirmos ao mundial de Kayak Surf que decorria na praia de stª Rita. Estávamos no mar à hora marcada, e ao fim de 45 minutos já eu estava todo roto. Não fazia ondas há muito, muito tempo, e aquele mar estava para se levar com boas e sequenciais bolachadas de ondas na fronha, na passagem da rebentação, só para se merecer uns quantos dropes . O Jorge, por solidariedade, saiu comigo da água, com um olhar de..."ainda há gajos mais rotos do que eu..." e, depois do cafezinho e da bola de berlim da ordem, assistimos ao evento dos "prós" mundiais durante toda a manhã. Na despedida, o Jorge dizia-me que não iria participar no campeonato nacional a realizar no dia seguinte. Eu sabia que o gajo não resistia... E assim foi.
Por motivos de força maior, não pude assistir ao vivo à brilhante prestação do meu amigo, mas decidi pesquisar na net e encontrei este material produzido pela malta dos Wavesurvivors (fotos e video)...





Parece nesta 2ª participação já não surpreendeu os adversários com o seu material high-tech, porque já o tinha feito na prova anterior em ribeira d'ilhas, onde conseguiu chegar às meias finais. Parece que toda a malta se distraiu a tentar classificar a embarcação entre a traineira, a baleeira e um submergível e o Jorge lá foi deslizando de (r)onda em (r)onda. No final toda a rapaziada, queria saber onde descobriu ele aquela máquina voadora com uma pintura moderna a imitar remendos de fibra de vidro. Como todos navegamos em cima de barcos fossilizados similares, já registámos a patente para futura comercialização,...como objectos de património histórico.

Desta vez, no Ocean Espirit, o Jorge lá voltou à carga e arrebatou um brilhante 3º lugar, tendo-me confessado à posteriori que aquela prestação implicou muita trolitada no toutiço e muito pirulito engolido. De facto o mar não estava fácil, com rebentação manhosa, mas Justas esteve ao seu melhor nível...e encheu os cotas de orgulho.


Será que isto aguenta muito mais tempo?...

Baleeiro com patente registada


Na "bomba" ninguém bate a sua volumetria...




Fotos e o video retirados do site da wavesurvivers

domingo, 3 de maio de 2009

O Regresso do Eremita


Era uma vez um reino bué, bué longe, onde havia um rio bué, bué inóspito, onde a água era bué, bué escassa, o acesso era bué, bué íngreme,…então quando é que aparece o Shrek, pá?,…..o desapontamento foi bué, bué grande. Depois fomos para outro reino bué, bué longe, para outro rio bué, bué giro,…nunca mais aparece o raça do Ogre e a princesa Fiona?....onde remámos bué, bué e mais bué, caminhámos sobre carris bué, bué de tempo, acartámos caiaques bué, bué pesados, chegámos ao carro bué, bué tarde, dissemos bué, bué asneiras…Mas o Ogre aparece ou não??? Qual Ogre qual carapuça! A história de hoje vai trocar um papão que come criancinhas ao pequeno almoço e dá bufas malcheirosas por 4 patos que foram papados por dois magníficos barretes e dão bufas malcheirosas(?).

Águeda Internacional - expectativas furadas
Tua – um pesadelo em forma de rio
Paiva - Um cheirinho de rio com sol de verão


A equipa outra vez junta

O regresso aconteceu! Ao fim de 10 anos de secura de rio, eis que Jorge Reis, companheiro de míticas aventuras, utilizador compulsivo de fio dental, coleccionador de sacos de plástico do continente, devorador de cebolas cruas, voltou às lides. Mandei-lhe um toque, convencido que iria levar mais uma nega, quando a resposta inesperada surgiu entre dentes “é uma hipótese”. Estava aberta a brecha para oportunidade do homem voltar ao rio. Acenei-lhe com uma aventura à moda antiga, um rio desconhecido e pouco acessível, regime de autonomia e latas de atum. A reviravolta deu-se e embarcámos novamente os quatro em direcção ao Águeda internacional. Mapas na mão, estudo dos poucos acessos e esperança de um caudal aceitável, lá fomos na noite da véspera, para iniciarmos a descida cedinho.


Quando ainda havia esperança...


...a esperança foi-se com a falta de líquido...



Desta vez não tínhamos nenhum apoio por terra; parece que a última experiência do João foi de tal maneira traumatizante que fugiu para a Serra Leoa e nunca mais foi visto. Acampámos num qualquer canto algures perto do rio e desta vez fiquei a chonar no carro, longe da tenda do Jorge Justino. Achei que tinha chegado a altura de não proferir mais nenhum comentário sobre uns ruídos proferidos durante a noite, para não bater mais no ceguinho, logo não vou contar a parte do ressonar que conseguia transpor os vidros herméticos do meu veículo e ecoava no interior dos meus tímpanos flagelados.

Tenda Durex

Acordámos cedinho e já o Jorge Reis tinha posto a sua banca multivitamínica sobre o caiaque composta por tomates crus, ovos cozidos, cereais, fruta, tâmaras tunisinas e bolinhos feitos pelo filho. Misturou aquilo e conseguiu ingerir tudo, qual Ogre, na hora do massacre. O envolvimento era fabuloso, como fabulosa era a nova tenda do Justas em forma de preservativo. Descemos até ao rio sem caiaques para nos depararmos com o que já tínhamos percebido de longe…muito poucachinha água. Ao inspeccionar um rápido sifonado, a máquina saltou-me do bolso e foi mergulhar no leito com o intuito claro de se suicidar no meio dos calhaus; já não conseguia suportar mais ser maltratada pelo dono. Posteriormente, depois de uma reanimação ao sol, percebeu-se ser anfíbia.



A mixórdia matinal


Para onde a minha máquina queria nadar...


tomatinho entre ovinhos


Caminhámos cabisbaixos percorrendo a íngreeeeeeme subida e, chegados ao carro, decidimos que iríamos descer um rio mais à mão que nenhum de nós tinha feito; o rio Tua. Entrámos na ponte de Brunheda e começámos a remar o “inferno branco” como alguém lhe chamou. O inferno existia de facto, e, curiosamente, também existiam muitos poléns brancos a esvoaçar junto às narinas. Remámos que nem uns Ogres, ou antes, que nem uns camelos, para irmos encontrando espaçados, alguns rápidos engraçados. Lembrámo-nos por momentos das intermináveis aquecidelas do Guadiana. A paisagem era realmente muito bonita e as enormes escarpas laterais vaticinavam a sina “se quiseres sair daqui vais ter de caminhar muito”.



No inicio só flores...



depois foi remar...



remar...



P´ra cortar a monotonia







Apeadeiro para lembrar...ou esquecer...

E assim foi. Cansados da euforia do rio, e com a hora a ficar para o tarde, decidimos sair no apeadeiro abandonado da linha do Tua chamado Castanheiro. Escondemos os barcos e seguimos a pé por cima da linha do comboio para irmos buscar o carro. A caminhada fez-se de passo condicionado pela largura dos carris, mas mesmo com esse empeno, a paisagem era fabulosa: belos seixos entre barrotes de madeira, apertados entre dois carris, davam um cunho romântico ao esforço, isto porque se retirássemos os olhos dos ditos barrotes os pezinhos ir-se-iam queixar muito. Apesar da Locomotiva Castro ter imposto um ritmo alucinante aos seus vagões, demorámos duas horas a chegar ao carro, com a certeza de que poucos conheceriam melhor a linha do Tua do que nós. Entre as discussões finais, vinha a questão se o barrote 2543 seria mais bonito do que o barrote 4187, havendo sempre alguém a dizer que o parafuso ferrugento é que dava beleza ao barrote 11430. Mas se a caminhada assumiu contornos de profunda autoflagelação, o que viria a seguir daria cabo do resto.



128 barrotes...
673 barrotes...

1850 barrotes às escuras...


Muitos barrotes depois...


Ajudados por um senhor local encontrámos o difícil acesso em terra batida ao apeadeiro do Castanheiro. “Mas o vosso carro não vai lá abaixo!” garantiu o senhor. Fomos descendo de carro até onde a sua tracção aguentou, mas chegou um ponto onde não dava mais. E esse ponto era bué, bué longe do rio. Demorámos muito tempo a descer com as articulações a ranger e, já de noite, começámos a acartar os Ogre de plástico com toda a roupa molhada dentro, por ali acima. Desculpem, mas esta parte eu quero esquecer, como tal ficará aqui apenas este hiato,..........................................................................................................................................................
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....................................................E, pronto. Chegámos à carripana às onze da noite, com a certeza que pior do que aquilo só ser papado por um Ogre verde esfomeado. O inferno branco afinal tinha-se revelado como um lamentável inferno negro.



Sem forças para libertar uma bufa... talvez o "peido mestre"


Estávamos nas últimas, as nossas células pedinchavam um naco de carne e muita gordura, mas a grande questão seria a de saber onde se poderia trincar chicha àquela hora. Encontrámos um sítio em Alijó que faz francesinhas até às duas da matina e aspirámos aquela pasta hipercalórica em menos de meio fósforo. Ainda ouve alguém que chegou a dizer que o molho tinha um sabor a puxar para o azedo, mas ninguém se importou.



Acampámos algures e acordámos todos partidos sem grande ânimo para mais barretes. Olhámos no mapa e, desconfiados que a água não abundaria nos rios do Minho e arredores, decidimos rumar a casa e a caminho dar uma mergulhaça rápida no Paiva. Agora seria aquela parte em que se faria referência aos sacos de plástico espalhados pelo carro fruto da sensibilidade que Jorge R tem para a arrumação mas, no sentido de preservar a sua presença na equipa em futuras descidas, vou apenas dizer que o tipo até é muito arrumadinho e aquela casca de ovo que ficou colada nos meus calções não veio do interior de uma das suas 4 caixas de plástico perdidas no veículo . Ia pensando se não tinha enganado o Jorge quando lhe afiancei que a aventura era “à moda antiga”. De facto, antigamente também metíamos grandes barretes e levávamos grandes aquecidelas, mas não havia net, nem guias de rios, nem boletins meteorológicos precisos.
Chegámos ao Paiva já tarde, e ao passar por cima da ponte de Alvarenga, vimos bué, bué malta a entrar no desfiladeiro. Estava a decorrer o festival do Paiva, com forte adesão. Optámos por fazer a micro-etapa do Vau-Espiunca para regressarmos cedo a casa. O tempo esplendoroso, calor de verão, fez com que entrássemos no rio de fato de banho, sempre com o olhar atento do Pedro e do Jorge em busca da minha barriga proeminente, para me confrontar com as ténues adiposidades similares às deles. Claro está que, apesar do esforço, os consolidados abdominais, não deixaram margem para gozo com a barriga alheia. Apenas tive de suster a respiração sempre que o olhar apontava na direcção.
O regresso do eremita



Barriga, eu???...Pronto ó Tarzan taborda, já podes parar de suster a respiração!!!




Kayakus Erectus






Quanto à descida, deu para reinar no caudal aceitável do Paiva , dispensando talvez a corrida final para ir buscar o carro desta vez acompanhado pelo Jorge Reis. A aventura, essa acabou como têm de acabar todas as aventuras à moda antiga: em frente de um prato com uma vitelinha grelhada, e batatas fritas afogadas na molhanga. Os 4 Ogres arraçados de patos, paparam a vaquinha arouquesa e viveram felizes para sempre….isto até alguém ter ousado soletrar a palavra CASTANHEIRO…