quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Ainda existem praias destas...


Marcámos a nossa aventura bi(g)geração familiar  , para a costa marítima nos arredores de Sesimbra. Programa de 2 dias rico e diversificado com muita remada, banhoca, mergulho e uma série de formações  intensivas em áreas tão abrangentes como: biologia marinha, pescas, agricultura,  geologia e quedas de calhaus, política de proximidade, gastronomia , apneia do sono e sem sono.  Desta vez a equipa apresentou-se quase completa: quarteto dos cotas (Jorge Reis, Justas, Pedro e Miguel) e respectivos filhos, com excepção para o filho/pai Henrique e da Rita filha. As esposas, essas, ficaram em casa comemorando a saída da prole e o consequente descanso. Arranque cedinho no porto de Sesimbra, com a faraónica tarefa de conseguir encaixar toda a tralha em cima de caiaques sem os transformar em submergíveis.  
De notar que o volume de material a levar dos 3 maiores caiaques era substancialmente superior ao daquele caiaque esquisito com tampas semi-estanques. O material a levar pelo tipo do caiaque pequenote ficou resumida numa frase emitida por um dos petizes: “Já viste que o Justas só leva Bejecas e batatas fritas!?”.

Seguimos viagem em mar aberto em direcção ao cabo carvoeiro. Cedo percebemos que as palavras iniciais do capitão do team Castro  seriam o mote de passeio descontraído pela consta vicentina…”vamos na calma a apreciar a paisagem”. Partida feita e embarcação Castro esfumou-se no horizonte, progredindo ao ritmo de um motor a 4 tempos (2 vigorosos braços, uma voz de comando forte “Faz força nessa pagaia Rodrigo!” e um escape de retaguarda de fazer inveja a um Honda tunning). As 3 tartarugas que ficaram para trás, foram tirando umas fotos e apreciando a viagem, sempre com a sensação que a embarcação líder, ao fim de uma hora, já tinha dobrado o cabo Espichel, preparando-se para avistar a ilha do Pico. 


Afinal encontrámos essa embarcação atracada na praia do cavalo; parece que os motores potentes precisam de mais refrigeração. Mergulho nessa fabulosa praia e seguir viagem em busca de uma praia deserta para montar acampamento.  Ao fim de 6 quilómetros de remada lá encontrámos o paraíso…a praia …(deixa ver, descobri agora o nome no Google),..é isso, praia do Inferno… (?). Foi tudo menos infernal…diremos que foi, pelo contrário,… divinal. Água cristalina, rochas para ver cardumes de peixes com fartura e um local privilegiado para montar acampamento. 
A única recomendação feita pelas mães antes da saída foi: “Não montem as tendas debaixo da arriba!”. Ainda bem que conseguimos. Aquela parede rochosa de 100 metros  que se erguia sobre a praia, na base da qual montámos as tendas não era bem uma arriba,…seria mais uma espécie de penhasco…zito. Mas a escolha não foi ao acaso.
O Pedro explanou os seus fartos conhecimentos em geologia e física aeroespacial  garantindo que, na eventualidade  de um calhau se soltar da parede, depois de sofrer uma aceleração, embateria contra a placa geológica inferior e aterraria longe das tendas.
A noite terminou com todas as tendas junto da água, depois de múltiplos calhaus não terem obedecido à teoria   do sábio geólogo, e choverem abundantemente em cima dos panos. O único que não se sentiu incomodado por aquela chuva de calhau, foi Justas Crosué,  tapado por um simples oleado. Parece que em termos aeroespaciais, os calhaus não conseguiram penetrar na sua atmosfera ressonante.
Depois de uma rápida prospecção subaquática verificámos que estávamos numa reserva de todo o tipo de peixaria.
Olhámos para o Jorge Reis e perguntámos onde estava a arma de caça submarina para nos garantir o jantar, ao que ele acenou negativamente. Na memória colectiva ainda paira uma longínqua viagem de BTT ao Algarve com arma disponível mas sem resultados materiais. Depois de alguns comentários depreciativos, Jorge, no sentido de preservar a sua dignidade, entrou no oceano apenas com a máscara e o tubo, mergulhou e surgiu segundos depois com um polvo agarrado ao pulso.  É d’homem! Polvo apanhado, surgia o conflito entre  colocá-lo em cima do caiaque para os miúdos aprenderem um pouco de biologia ou  colocá-lo em cima da grelha para os miúdos aprenderem truques de culinária. E porque não um 2 em 1?  Ou utilizá-lo para adivinhar os resultados do Sporting no campeonato? …nããã é melhor não sofrer por antecipação. Os cachopos ficaram tão embevecidos com a doce criatura a mexer os tentáculos que tivemos de o devolver ao seu habitat.
A praia deserta seria o local ideal para ser lançada a campanha : “Vote for Pedro” . Um movimento de cidadania que visa ser a pedra no charco do panorama político português, começando logo pelo slogan que alia portugalidade a universalidade. Para começar nada melhor do que oferecer umas bifanas aos eleitores, mas de forma totalmente desinteressada. Os  quilos de bifanas encomendados, que chegariam para alimentar  a população da margem sul, deixou o vasto eleitorado a arrotar durante toda a noite. “Vote for Pedro …e trincará bifanas deste calibre!”. A  sua estratégia foi de tal maneira bem elaborada, que o seu mandatário de campanha, especialista em hortas urbanas, colheu do fundo do areal umas latas de cerveja nacional que descobriu  na sombra do calhau leste. “Vote for Pedro e conseguirá colher na sua horta estas bejecas fresquinhas!”.   Durante o jantar, quando estavam a ser lançadas as promessas eleitorais “duas rotundas e um viaduto bem no meio do oceano”, toca o telefone e o Rodrigo , depois de atender responde efusivo: “Passei a Matemática por duas décimas!” . Ficámos felizes por ver o Rodrigão vencer esse bicho papão. Pedro aproveita a deixa “Vote for Pedro…e terá milagres na sua vida!”. Campanha infalível, político de futuro.
Tempo para observar também a capacidade isotérmica da epiderme do Jorge Justino. Mergulhou sem fato artificial e , com o entusiasmo do universo marinho, nadou durante 1 hora sem qualquer sinal de hipotermia. Já o Jorge mais magrinho, percebeu que aumentar o mergulho sem fato acima da meia hora, representa tirintar de mandíbula durante outra meia hora…come mais rapaz e chegarás ao nível do Justas.
Para além destas peripécias, a imagem que fica estampada na memória, será a daquela fabulosa praia, onde os amigos e os filhos partilharam a paixão pela natureza e pela aventura … sem computadores, internet, jornais, televisão. Os miúdos perguntam-me aqui em casa: quando é a próxima pai?...e eu respondo: quando nós quisermos!...

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Regresso ao líquido



Já não metíamos as carnes de molho há quase 2 anos. Várias condicionantes levaram a este flagelo prolongado de secura, mas decidimos parar com o jejum e tirar o bolor dos caiaques. Tínhamos decidido que esperaríamos por condições adequadas às capacidades de cotas enferrujados. Queríamos um caudal não demasiado agressivo e um sol que levasse a pluviosidade para longe da nossa moleirinha; conseguimos ir em 2 dias de chuva torrencial para rios em pré-cheia…boa opção. Desta vez apenas se voluntariaram os 2 do costume , mas com um reforço logístico de peso, que nos poupou das extenuantes corridas finais de recuperação do veículo. Para além disso, o Sérgio disponibilizava-se para oferecer de forma totalmente gratuita, as suas vastas competências no domínio da fotografia no acompanhamento da descida, ele que foi um dos injustiçados por ver o seu nome fora dos prémios “National Geographic 2010”. Finalmente iríamos ter um registo de gabarito, adequado ao nível técnico dos praticantes. O Pedro já não tinha de levar a sua máquina, nem se queixar que ficava mal na fotografia, pois estava escudado por meios técnicos de relevo : fotógrafo experiente e máquina de alta definição…comprada há alguns anos atrás (surgem relatos de um aparelho similar junto do sarcófago do faraó egípcio Tutankhamon).


Optámos por voltar ao Covo, o nosso rio de eleição. Choveu torrencialmente durante a noite, juntando a toda a água acumulada no último mês. A Manhã a chover retraía a vontade de regressar ao rio. Depois do farto p/almoço em C. Daire , rumámos ao rio debaixo de chuva…granda galo!...não me apetecia chuva na chanfradura e ela aí estava. No momento em que nos equipávamos o sol rompeu por entre as nuvens e respeitou o nosso desejo de regresso iluminado; um sinal divino. Deparei-me com graves falhas na qualidade do meu equipamento, que mingou de forma significativa desde a última descida. Rio Covo em grande, com um caudal mais do que generoso seria um banquete adequado.

A equipa
O Fotógrafo colocou-se a postos e, qual malabarista de circo, manuseou 2 máquinas em simultâneo, disparando fotografia com uma mão, vídeo com a outra e equilibrando duas ameixas em cima da cabeça. Apenas ao alcance de poucos…A primeira fotografia registada, representou um hino à arte do ofício: a luminosidade, o contraste, o enquadramento, os objectos aparecendo de forma subtil, quase imperceptível. A imagem, da corrente da água, cortada pelo ténue sinal de um capacete avermelhado e um objecto alaranjado, revela toda a sua criação artística. Se a qualquer olhar menos sensível e abrutalhado, aquela imagem do capacete poderia dar azo a um reparo do género :“Que  merda é esta?” , para os entendidos trata-se de uma obra artística de elevado potencial digna de ingressar numa das salas do museu Berardo . 
A água, o vestígio do vermelho, o surgimento ténue do laranja...
Esta ficou um pouco terra a terra...do ponto de vista artístico
Voltámos à arte: os ramos,...a imagem desfocada do elemento,....
E o que dizer da filmagem de vídeo? Divinal. A definição da câmara transcende qualquer película de 8mm, as panorâmicas feitas com mestria e todo o movimento captado sem mácula, imagens que preferimos deixar fora deste blogue, que não merece tamanha pérola cinéfila. Quanto à descida propriamente dita, foi feita com poucas paragens e animação constante. Apenas referir o episódio do rápido da passagem final retentiva, que tínhamos decidido abordar com cautela. O Pedro, sem dar por ele, entrou na sequência qual Cristiano Ronaldo na área do Barcelona e, quando percebeu em que cenário estava, agarrou-se seguro a um tronco na margem, interiorizando um sorriso “eh,eh, querias-me apanhar aí oh buraquinho?!...”. Foi quando ouviu um Cracccc e verificou a resistência do tronco… partido na sua mão. Vai daí, para o retorno final não se ficar a rir, entrou de retaguarda , para que, no caso da coisa dar para o torto, ao menos soltaria em forma de vingança uma das suas atoardas flatulentas. Eu fui de seguida, também sem noção da coisa, mas não dei a retaguarda ao bicho, que nessas coisas sou muito cauteloso e esquisito. Descemos o Covo de forma limpa em menos de uma hora e meia e apenas apanhámos chuva (em forma de pedra) já no final.
O Sérgio estava à nossa espera com 2 simpáticos cães. Entre duas lambidelas o cão mais novo sussurrava-me ao ouvido em forma de latido: “Sabes, eu tive agora um curso intensivo de fotografia com este senhor de chapéu esquisito e até fiquei a saber que não podemos cortar elementos, tais como, cabeça, tronco e membros da fotografia…”

Rumámos ao Paiva para atacarmos no dia seguinte o desfiladeiro. Espreitámos o rio de cima e achámos que a coisa levava água a mais para as nossas unhas nos 2 principais rápidos (sem calhau à vista) e optámos por descer a micro-etapa do Vau a Espiunca, no dia seguinte. Na hora de jantar, levámos o Sérgio aos bifes da vaca Arouquesa, que o Pedro lhe tinha vendido como uma posta de vaca mirandesa, naquela fase em que deitava a mão a todos os métodos de aliciamento em busca de apoio (melhor do que ele só Paulo Portas a beijar os buços das varinas). Publicidade enganosa, dizia o Sérgio, olhando para o suculento bife com um desdém similar ao que olhará Kimi Raikonnen para um Fiat 600. Entre queixas da textura da comida, lá papou todo o bife ao som da inspiradora prosa da dona do restaurante que achou muita piada aos seus pixéis. Nem mesmo no momento do relato do familiar que morreu a esguichar sangue pela boca, Sérgio se deixou impressionar e lá continuou a trincar o sangue do bife da tal vaca que não era mirandesa.
Curso de engenharia civil em 5 lições....

Noite de acampamento junto ao rio, numa daquelas tendas que se montam em segundos e se arrumam em largos minutos, mas que são totalmente impermeáveis a enxurradas de água,…cof,cof,…. Pequeno almoço no senhor da padaria de Canelas, onde relembrámos histórias com mais de 20 anos e descida do troço de rio que tínhamos decidido no dia anterior. Troço supersónico feito voando sobre as enormes ondas que se desenharam no rio nesse dia. Foi um óptimo regresso às lides, reforçado com a mais valia da presença do Sérgio e da sua máquina fotográfica, com a garantia de que o brindaremos, numa próxima descida, com uma bela posta de vaca Goesa. Em baixo, as poucas imagens registadas pela fabulosa máquina do artista. A nós resta-nos o justo apelo à revista National Geografic : “Para quando esse prémio , seus artolas?”

terça-feira, 17 de maio de 2011

Águeda Paraíso


Conseguimos uma aberta, ou antes, conseguimos a árdua tarefa de encontrar uma aberta no hiper-preenchido calendário do Jorge Justas e lá fomos, depois de meio ano sem remar, em busca da aventura. Apontámos ao Águeda Internacional, para nos baldarmos às portagens, mas não acalentando à partida, grandes esperanças de um caudal aceitável para descer. Já tínhamos definido uma volta a Portugal, até ao Castro Laboreiro, no caso do líquido no Águeda nos defraudar.
Saímos de Torres Novas com calor de verão, chegámos a Almeida debaixo de uma intempérie invernosa com relâmpagos e tudo. Desta vez o Cruise control do Pedro ficou em Lisboa, e voltámos ao pedal control da bomba Ford. No caminho, a potência da bomba foi sendo posta em causa pelos experts da mecânica automóvel, afiançando que a 3ª se ia abaixo, que o motor carecia de compressão, que os pistons não deslizavam, tudo pintelhices (parafraseando um tal economista aspirante a ministro) que se esfumavam na velocidade de ponta do veículo sobretudo nas…descidas…Ainda se fizeram associações brejeiras de uma pseudo-relação entre a falta de potência do carro e a prestação em domínios obscuros do seu dono, …mas o dono passou ao lado.
Chegados a Almofala , na conversa com transeuntes, descobrimos que, para aqueles lados, chovia há 3 dias seguidos, factor a favor do líquido no rio. Espreitámos o rio lá de cima,…bem lá de cima,…porque o rio fica lá em baixo,…bem lá em baixo. Um desfiladeiro majestoso que augurava uma aventura à moda antiga e que parecia ter alguma “áuguita”(ao contrário da 1ª tentativa seca feita há um ano atrás). Decidimos que a 1ª etapa terminaria algures ali em baixo, num caminho que sairia algures perto do rio. Seria fácil identificar a saída vindos do rio?...mas é claro que sim!...afiançava um pastor…Tentámos arranjar boleia para colocar o carro na chegada, sem sucesso. O nosso aspecto seria confundido com um qualquer presidente do FMI a sair da casa de banho, e toda a malta que abordámos em busca de boleia, se fechou em copas, obrigando-nos a ir para o rio sem carro no final…

 O rio não nos defraudou. Rápidos amigáveis, alguns sifões pelo meio e duas paredes enormes de cada lado, mantinham-nos enclausurados naquele espectáculo de beleza natural. A ideia de que, se algum azar acontecesse não haveria grandes hipóteses de sair dali, era reforçada com o permanente olhar aéreo dos enormes abutres, em busca de um belo jantar. Águias reais que pegavam em borregos pequenos como de coelhos se tratassem, também nos lançavam o seu ávido olhar … A temperatura do ar e da água ao nível das tépidas ilhas bora-bora. Remámos e reconhecemos, durante 6 horas. O tal do caminho de saída tardava em aparecer, ao que o Pedro lançou um : É Aqui!...Olhei para a margem e só via matagal subindo por uma encosta muito íngreme(?). Incrédulo, lancei…Aqui aonde??? Qual perdigueiro treinado, Pedro vasculhou os vestígios de provas e viu beatas no chão. Pensei tê-lo ouvido dizer ao jeito do grande chefe humpá-pá: "rosto pálido passou aqui à 38 horas e 43 minutos".... Decidimos deixar os caiaques e todo o material junto ao rio e embrenhámo-nos no matagal , sem grandes certezas no instinto pisteiro do nosso guia. É aqui o caminho! A alegria por termos encontrado o trilho, foi-se desvanecendo à medida que percorríamos aquele calvário de meia hora sempre a subir. No total deu quase 2 horas de caminhada até ao carro.

 Esse factor deu origem a que me rendesse e trocasse a primeira noite que dormi dentro do veículo sem potência, por uma 2ª noite na fofa caminha da pousada da juventude…num quarto bem longe do das duas betoneiras, que tentavam discutir entre si o título do motor acústico com maior compressão. Não sei qual dos 2 saiu vencedor, mas eu dormi que nem um anjinho.
No 2º dia, com medo de termos de penar com uma caminhada muito maior do que a do dia anterior, a envergadura do Pedro entrou sem hesitações dentro de uma oficina em Mata de Lobos atacando: “Aquela carrinha 4x4 é de algum dos senhores?” Lá do fundo respondeu um senhor a medo… “é minha!”…o instinto mortífero do matulão tratou de voluntariar à força aquele desprotegido senhor, estendendo-lhe logo uma nota na mão e apresentando a sua ajuda como um facto consumado. O senhor lá nos foi levar ao rio, de início um pouco contrariado, mas depois, quando viu que estava perante malta séria, daquela que não diz uma asneira, não lança um ressonar, não diz mal do governo, não liberta uma bufa malcheirosa,…descontraiu-se e até desceu connosco ao rio.
Mais uma etapa fabulosa, desta vez com os músculos doridos do dia anterior e da falta de treino.
No final estávamos contentes por todo aquele envolvimento e por termos o carro já ali em cima…?...sim ali em cima…era só levar os caiaques e os fatos molhados ali, até onde tinha ficado o carro. No desfiladeiro do Águeda, o “Já ali em cima” significa “Mas nunca mais chegamos à porra do veículo …sem potência…”
A dureza da subida, fez saber melhor a frescura da bebida na companhia do senhor que nos salvou e nos ajudou a colocar o carro …já ali em cima...


Um fim de semana inesquecível, num rio inesquecível. A vida tem destes presentes reservados a quem se atreve a procurar...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Covo em Cruise Control...



Tinha várias opções para comemorar os meus 42 anos. Entre a estadia num hotel de 6 estrelas no Dubai, uma sessão intensiva de massagens com 5 tailandesas, uma viagem a Nova Iorque, decidi por uma descida de rio com dois amigalhaços…?...um gajo com a idade perde faculdades ao nível do discernimento… 4+2=6?...42?...24?...

Combinámos em cima da hora, uma incursão compatível com as debilidades físicas de quem já não remava há uns meses. O Covo tinha os ingredientes que necessitávamos: diversão, pouca distância e reduzido stress… só faltaria o tempo para ajudar, mas os tipos da meteorologia não tinham compaixão pelo aniversariante e vaticinavam chuva com fartura e ventos fortes. Mas que se lixe! Até porque teremos a oportunidade de conhecer as enormes potencialidades do novo veículo do Pedro. E não fomos defraudados. A viagem foi uma descoberta constante das múltiplas e intrincadas funções do carro arraçado de Concorde. Tudo naquele robot de rodas funciona de forma automática, aspecto que, garantia o Pedro, não lhe dizia grande coisa. “Vocês sabem que eu não ligo nenhuma a estas mariquices,…mas já viram aqui este comando automático dos retrovisores?...” . Mas dentro todas as funções inovadoras do veículo, aquilo que mais sucesso fez, foi o tal do “Cruise Control”, que consistia em manter o carro em velocidade constante, sem se ter o fatigante trabalho de pressionar o acelerador com o pé. A outra vantagem é nunca se passar do limite sobre o qual a brigada de trânsito esfrega as mãos de contente. A substituição do nome “controlo da velocidade” por “cruise control” tem duas funções: a função de internacionalizar para impressionar, na mesma linha do “tration control” (controlo de tracção), do “ligth control” (controlo da iluminação), do “seat belt control” (controlo dos cintos), “Fart control” (controlo do cheiro das bufas malcheirosas com abertura automática dos vidros).

Vejam! com Cruise Control e sem... Hands Control

Todos os nomes poderiam ser muito bem ditos em português, mas não tinha o mesmo estilo. A outra razão para a utilização deste estrangeirismo está no próprio “Cruise”, o sobrenome do tal actor que andou a brincar ao quarto escuro com a Nicole Kidman e a Penelope Cruz. É que o indivíduo foi protagonista do filme “Missão impossível”, o mesmo tipo de missão, que representava aguentar o pé de chumbo do Pedro inibido pela limitação do “Cruise control”. O acelerador era para ser pressionado em todo o seu esplendor e as multas…que se lixem… Que saudades do Fiat Panda dos anos 90, que nem tinha “heavy control” quando lhe púnhamos 5 latagões dentro e 5 caiaques em cima, nunca se queixava do peso e das irregularidades dos trilhos de montanha.
Concorde terrestre com "Kayak control"

Chegámos ao rio sem muita chuva, sem muito vento, sem muito frio e com alguma água. Desta vez eu iria estrear o meu presente de anos, umas calças “secas” encomendadas em tamanho L e recebidas em tamanho M, não por manifesta incompetência do vendedor, mas porque a viagem pelo correio tinha a função de “Size Control” e tratou de as mingar, achando que as minhas adiposidades não eram assim tão consideráveis.
Antes de entrar no rio, percebi logo que as minhas chanatas compradas no Lidl não tinham grande "tration control" e espetei com a bunda no chão e um silvado na mão esquerda.



Estou com dificuldade para entrar neste Size Control















Desta vez a descida não teve grandes oportunidades de recolha de imagens, perdão, “Image control”, isto porque o rio foi descido sem grandes paragens ou reconhecimentos, atestando o “self control” dos protagonistas. De destacar apenas a respiração ofegante do aniversariante após as primeiras remadelas, não por ter feito 42 anos, mas por alguma falta de treino específico da coisa. Com alguma inveja do “Cruise Control” da carripana do Pedro, eu e o Jorge não nos quisemos ficar atrás e testámos também o “Cruise Control” da nossa embarcação , mas coisa descambou em duas valentes caroladas no sólido calcário das pedras do rio. Tínhamos acabado de criar o “Head Control”, pela descoberta de que, tal como nunca se deve entregar o cartão de crédito à mulher dentro de um shopping, nunca se deve entregar o controlo da condução ao inerte caiaque…

Depois de concretizada a fabulosa descida seria a altura para a oferenda de prendas ao tipo que fazia anos. Os amigalhaços lembraram-se oferecer ao aniversariante aquela atractiva corrida em subida até ao carro. Fiquei feliz por se terem lembrado de prenda tão consoladora. Na altura de trincar o bife da vaca arouquesa, a senhora do restaurante tratou de oferecer ao aniversariante o bife bem passado com metade do tamanho do bife dos amigalhaços… Percebi que aquilo só poderia ser "Beef control" da cozinheira, para que as minhas carnes entrassem nas calças secas "size control" . O aniversariante agradece a generosidade…





O Meu...é o mini...

Valeu o desenho artístico da minha filha no final do dia e a história do “Duende que salvou o dia” desenhada pelo meu filhote. O meu dia de anos foi criado pelo Duende que sabia os ingredientes necessários para me salvar o dia: Começa no Rio com os amigos, termina em casa com a família…

segunda-feira, 15 de março de 2010

Novamente o Covo...E MacGyver com o canivete suiço

Depois de quase um anito sem remar os velhadas voltaram ao rio...



EO RESGATE EM VIDEO



Há algum tempo que estava combinado. O Jorge tinha um caiaque ainda com a etiqueta da loja dos trezentos, mas esperávamos que se reunissem as condições fundamentais para o reencontro com o líquido: Àgua em barda, Alívio das mazelas físicas próprias da idade e um sol do camandro. Na realidade decidimos que já não nos dá grande gozo apanhar com água na cachimónia durante as descidas, até porque as artroses dão logo sinal. Ìa quase incluindo a 4ª condição associada à escassez do saldo bancário, mas depois de ouvir a entrevista do Sócrates ficámos a saber que estamos perto da entrada directa na revista "Forbes".
Sem muitas dores, com perspectivas de água em barda e um sol do camandro, lá fomos todos contentes para o Côvo, um dos rios predilectos. Curiosamente, mesmo depois das chuvadas ininterruptas deste inverno, o rio tinha menos água do que as últimas descidas que tínhamos aí realizado. Deu para passar tudo, para o Jorge reconhecer que entre o seu antigo submarino e o seu caiaque novo com outra volumetria, a sua generosa massa corporal , estava mais tempo ao ar. Percebemos também que o Pedro não tem falta de acuidade auditiva, o barulho da água é que é muito intenso para os seus ouvidos.








O insólito aconteceu logo após uma passagem com um final algo retentivo. Uns metros mais à frente um pequeno desnível sem aparente dificuldade e o caiaque empancou num estranho bloco. Ficou atravessado e, com a força da água não deixava desbloquear, e rapidamente fiquei com água pelo peito. Decidi sair e esperar pela ajuda do Pedro e do Jorge. Corda daqui, puxão dacoli e o caiaque, farto de tanto abanão, decidiu esconder-se bem encostado ao leito do rio e desapareceu (literalmente) para debaixo dum enorme calhau. Dizer ao Pedro que teríamos de deixar ali o barco, seria espetar uma faca no seu ego de Macgwyver irredutível. Lá o consegui arrancar à força do local, mas notei na sua deprimida cara um “Isto não fica assim!...”.



Voltámos com menos um caiaque no atrelado mas não deixámos que esse episódio nos boicotasse um dos momentos mais importantes: o repasto pós rio. Parámos em Stª Combadão e, todos os restaurantes pareciam estar fechados. Todos, excepto a tasca da tia Alice, que nos presenteou com uma chanfana caseira a 5 euros a dose.
E o caiaque???...coitadinho, ali debaixo de água???...No momento em que trincava a chanfana, Macgwyver, já congeminava o resgate.
3 dias depois, lá fomos, agora sem o Jorge, munidos do …canivete suíço, e mais umas coisitas para ajudar a pescar a lampreia cor-de-laranja.



3 DIAS DEPOIS...

Voltámos ao local do desaparecimento, desta vez munidos com mais algum materialzito. Pedro MacGyver já tinha tudo pensado, mesmo para as mais difíceis contingências. Metemos os menires às costas em forma de mochilas e arrastámo-nos até ao rio. O caiaque, que não se via, por apalpação verificámos que tinha a presa da frente partida. Nada que desmoralizasse o mestre, que pôs todos os conhecimentos de engenharia do desenrascaço em acção. Ventas no líquido, amarração ao nível, cabo esticado, e trifor a funcionar. O peixe saiu logo à primeira, em perfeito estado e bem lavadinho. A lamentar apenas, que já no início do regresso, MacGyver tenha despoletado a sua hérnia discal adormecida, acabando a caminhar empenado até ao carro. A sua honra de Mestre do desenrasca, essa, voltou a não sair empenada...


MAcGyver resolve apenas com 1 canivete...
...e mais algumas coisitas...



Apanhar Lampreias à dentada?...MacGyver resolve!!!

Onde está o caiaque?...no final da corda...


Missão Impossível? Nunca para Macgyver!